Por Renata Rivetti
Com a entrada da NR-1, empresas correm para se preparar para o mapeamento dos riscos psicossociais e a construção de um plano de ação. Mas a grande verdade é que o tema não é novo e não deveria ser somente endereçado de forma reativa.
Por muito tempo as empresas se perguntaram: devemos focar em performance ou bem-estar? E na realidade esse questionamento está completamente equivocado. Não é sobre um ou outro, o bem-estar certamente não é antagonista aos resultados, na verdade é um grande aliado. Mas por que então, em pleno século XXI, seguimos acreditando no mito da necessidade de um trabalho com sofrimento e workaholism para gerarmos resultados?
A palavra trabalho, vem do Latim, tripalium, que era um instrumento de tortura. Desde lá, seguimos na crença de associar trabalho ao sofrimento. Segundo Adam Smith,economista e filósofo, considerado o “pai da economia moderna, o trabalho significa sempre um “o sacrifício de uma certa “parcela de bem-estar, liberdade e felicidade.”
Nas décadas passadas, especialmente entre os anos 1950 e 1990, muitas empresas e modelos de gestão acreditavam que ser workaholic era uma qualidade desejável para gerar resultados. A cultura corporativa valorizava longas jornadas de trabalho, dedicação extrema e sacrifício pessoal em prol da produtividade e do sucesso organizacional. E a liderança entendia que o microgerenciamento, comando e controle seriam necessários para atingimento de metas.
As revoluções industriais enfatizaram efi ciência, padronização e disciplina, e esse modelo mais rígido foi o que garantiu que as fábricas e organizações conseguissem alto desempenho e performance.
Porém, após a revolução digital, em um mundo pós-pandemia, híbrido, tecnológico e globalizado, será que não é hora de debatermos novos modelos? A neurociência mostra que ambientes de workaholism têm efeitos negativos no cérebro, prejudicando cognição, foco e bem-estar. Apesar de nosso cérebro ser adaptável, ele não foi projetado para manter um estado de hiperprodutividade e hiperfoco por muito tempo. O resultado disso é uma exaustão, que nos leva a erros, aumento do cortisol e do estresse crônico, o que nos leva a redução da produtividade e da criatividade e redução da plasticidade neural, que reduz nossa capacidade analítica e estratégica.
Ou seja, ambientes de medo, comando, controle, microgerenciamento e workaholism não são bons para os negócios, não geram resultados a longo prazo, reduzem a produtividade, o engajamento e inovação. Além disso, são péssimos para a nossa sociedade, que hoje vive uma crise séria de saúde mental. Os líderes afetam a saúde mental dos seus colaboradores da mesma forma que o cônjuge dessa pessoa. Suas ações podem adoecer seus times e isso impacta no indivíduo, mas também em nós como sociedade, com cada vez mais casos de depressão, ansiedade e suícidio.
E agora, com NR-1, o momento talvez seja para realmente entendermos o papel dessa liderança e o impacto de suas ações tanto em saúde mental, quanto engajamento. Entender que felicidade no trabalho não é sobre piscina de bolinhas, mesa de ping pong ou ações pontuais de bem-estar e sim na construção de uma cultura saudável, uma liderança humanizada e um ambiente seguro psicologicamente.
Quando nós, líderes, entendermos que a sustentabilidade humana será a sustentabilidade dos negócios, talvez façamos a nossa parte. Enquanto não há uma real consciência, a NR-1 vem para mapear, apontar os desafios e colocar o foco das empresas em um plano de ação.
Cuidar de pessoas deveria ser o óbvio. Mas seguimos fazendo a nossa parte, desmistificando, transformando e construindo novos caminhos, melhores para os profissionais e para as organizações.
Renata Rivetti




