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Um novo olhar sobre protagonismo

Hoje, protagonismo não é apenas ação individual — é consciência coletiva. Não é só “fazer acontecer”, mas fazer acontecer com intenção, colaboração e adaptação inteligente ao mundo em constante mudança.

Um novo olhar sobre protagonismo

Nos anos 1990, Stephen Covey se tornou uma das maiores referências globais sobre comportamento e liderança com o best-seller Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes. Sua ideia de protagonismo — centrada na responsabilidade pessoal, iniciativa e escolha consciente — foi revolucionária para sua época. Em um mundo onde o trabalho ainda era muito vertical, mecânico e obediente, Covey trouxe uma nova ética da autonomia com propósito.

Mas hoje, mais de 30 anos depois, o mundo mudou.

O trabalho se tornou mais complexo, interdependente, veloz e conectado. As soluções não cabem mais em silos ou heróis solitários. E surge a pergunta:
ainda vamos dizer aos nossos filhos que eles precisam dar conta de tudo sozinhos?
Será que precisamos atualizar nossa visão de protagonismo?

Talvez sim.

Hoje, protagonismo não é apenas ação individual — é consciência coletiva. Não é só “fazer acontecer”, mas fazer acontecer com intenção, colaboração e adaptação inteligente ao mundo em constante mudança.

E isso muda tudo.

Se antes o protagonista era visto como aquele que “vence sozinho”, hoje essa ideia pode soar ultrapassada — até excludente. O novo protagonismo se constrói em diálogo com nossa vontade pessoal, o contexto onde estamos inseridos, a tecnologia que nos cerca e, sobretudo, nossa capacidade de colaborar com outros.

Em tempos de Inteligência Artificial, por exemplo, o protagonismo moderno talvez não esteja no ato heroico de uma conquista individual, como uma cigarra que canta até morrer, mas na percepção das próprias limitações e na busca por complementariedade — com pessoas e ferramentas.

Veja o que está acontecendo em algumas áreas de publicidade e literatura por exemplo.

Publicidade: a agência Africa usou a IA MidJourney para gerar 100 variações de um anúncio em apenas uma hora. Um feito impressionante — mas que só trouxe resultado real porque houve um time humano definindo a direção criativa final. O resultado? Um ROI 70% maior do que campanhas 100% automatizadas.

Literatura: ¨O Último Poeta¨-  romance vencedor do Prêmio Jabuti 2025, foi escrito com apoio do ChatGPT. Mas segundo a editora, foram 287 revisões humanas até alcançar a nuance desejada.

“Tecnologia é vento; criatividade humana é o leme” – essa frase frequentemente atribuída a Gustavo Hesse, destaca a ideia de que, embora a tecnologia forneça os meios e a força propulsora (o vento), é a criatividade humana que direciona e dá propósito a essa força (o leme). Em outras palavras, a tecnologia por si só não determina o rumo das inovações ou transformações: é a aplicação criativa e consciente por parte dos seres humanos que define o caminho a ser seguido.​

Essa perspectiva é particularmente relevante no contexto atual, onde a integração entre tecnologia e criatividade humana é essencial para enfrentar desafios complexos.

O futuro pertence aos que dominam ambos.

Esse novo olhar para o protagonismo nos convida a sair da lógica do “herói solitário” para a lógica do “agente conectado” — alguém que atua com propósito, mas sabe quando pedir ajuda, usar ferramentas, escutar o contexto e se adaptar.

É sobre ser potente junto com os outros.

O Protagonismo na Prática: os Rebeldes da Transformação na Alemanha

Muitas organizações falam sobre transformação. Poucas realmente a colocam em prática. Por isso chama atenção o movimento de uma comunidade crescente de “rebeldes corporativos” na Alemanha — profissionais de empresas como Bayer, BMW, Würth, Fujitsu, Böllhoff Group e da Polícia de Hessen, que decidiram parar de discutir e começar a agir.

Desde junho de 2024, eles se reúnem regularmente para aprender juntos, compartilhar práticas e, acima de tudo, experimentar novas formas de operar. O nome desse grupo? Rebel Cell Alemanha.

Mais do que encontros, o grupo criou formatos potentes de protagonismo coletivo, como:

  • Sessões de Conhecimento, onde membros exploram conteúdos da Corporate Rebels Academy e depois os conectam à sua prática organizacional.
  • Sessões de Desafio, nas quais um participante apresenta um problema real e recebe feedback direto, sem floreios — apenas contribuições úteis e honestas.

Um exemplo marcante veio do Innovation Hub 110, unidade de transformação digital da Polícia de Hessen.
Com 20 mil colaboradores, eles enfrentavam o desafio de transformar estratégia em ação concreta.
A solução? OKRs combinados com uma estrutura dual de operação — mantendo a hierarquia, mas incorporando agilidade em rede.

“Saímos das Sessões de Desafio com ideias que não teríamos percebido sozinhos,” diz Sebastian, do Hub.
Esse é o novo protagonismo: ousar mostrar a vulnerabilidade para abrir espaço à inteligência coletiva.

O diferencial dessa comunidade está na diversidade:

Quando a Bayer fala sobre inovação sob rigor regulatório, a BMW reconhece os paralelos com sua engenharia.

Essa mistura de perspectivas elimina os ecos de pensamento individual e gera soluções inovadoras — um tipo de protagonismo que nasce do encontro entre diferenças.

“O poder dessa comunidade está nas conversas honestas sobre o que não funciona,” diz Kevin, do Böllhoff Group.
“É aí que o verdadeiro aprendizado acontece.”

E você?

Talvez seja hora de revermos o que estamos chamando de “protagonismo” nas empresas, nas escolas e nas nossas casas.
Será que insistimos demais na ideia de que cada um deve “dar conta sozinho”?
Será que podemos abrir espaço para formas mais sustentáveis e colaborativas de fazer a diferença?

O futuro do trabalho não é teoria. Ele está sendo construído — aqui e agora.
E o protagonismo que o futuro exige não é individualista, mas inteligente, relacional e interdependente.

Lívia Torquetti é referência nacional em cultura de aprendizado e mudança de mentalidade organizacional.

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