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IA e carga cognitiva: por que o time ganha tempo, mas termina o dia mais exausto

A IA cumpriu a promessa de devolver tempo e o time terminou o dia mais cansado mesmo assim. O neurocientista Daniel Hosken explica a carga cognitiva por trás disso e o que a liderança pode combinar com o time

Por Daniel Hosken

Por que tanta gente entrega mais do que nunca e termina o dia com a sensação de que faltou alguma coisa? Levei essa pergunta ao DMT Inspira porque ela descreve o momento das empresas melhor do que muitos indicadores de produtividade. A inteligência artificial cumpriu o que prometeu, o relatório que tomava uma tarde sai em quarenta minutos, e mesmo assim o cansaço subiu na mesma proporção do volume das entregas.

Um estudo publicado na Harvard Business Review em setembro de 2025, feito por pesquisadores do BetterUp Labs com o Stanford Social Media Lab, deu nome a uma parte desse problema. Chamaram de workslop o trabalho gerado por IA que parece pronto, mas não resolve a tarefa. Na amostra de 1.150 profissionais, 40% disseram ter recebido material assim no mês anterior, e cada ocorrência custou quase duas horas de retrabalho a quem recebeu.

O número vem de uma pesquisa autodeclarada, conduzida por uma empresa que vende solução para o problema que descreve, então vale tratá-lo como sintoma e não como sentença. Mas o sintoma bate com o que eu vejo em consultorias e na sala de aula com executivos. O esforço não desapareceu. Ele mudou de lugar.

Preciso dizer de onde eu falo. Eu uso inteligência artificial todos os dias, não pretendo parar, e ela não derrete o cérebro de ninguém. Bem utilizada, é um ótimo instrumento de produtividade. O que me interessa discutir é o que vem junto.

O tempo devolvido não vira folga sozinho

Vou usar a minha rotina, porque é mais honesto do que usar a dos outros.

Uma análise de dados de pesquisa científica que antes me tomava dez dias hoje sai em dois. Uma consultoria que eu entregava em sete meses agora precisa sair em três, porque se eu não aceitar esse prazo o cliente contrata um concorrente. Os meses que sobraram não viraram descanso. Viraram mais consultoria, mais aulas, mais artigos.

Dentro das empresas o mecanismo é idêntico. As horas que a automação devolveu evaporamk antes do fim do expediente, convertidas em demandas novas, reuniões novas, expectativas novas. A régua sobe, e sobe mais rápido do que a nossa biologia.

Não existe pílula de capacidade cognitiva. Os dados com rigor acadêmico não mostram nenhum cérebro se adaptando na velocidade em que o mercado tem cobrado. Eu costumo dizer que a tecnologia não pede licença, ela pede desculpa. Desde novembro de 2022 já atravessamos três ondas de IA, a da conversação, a da multimodalidade e a dos agentes que executam tarefas, com uma quarta a caminho. Começamos a usar tudo isso antes que alguém escrevesse o manual, o que nos coloca na posição de cobaias de um laboratório mundial. E eu não falo isso como figura de linguagem.

O que é carga cognitiva, sem jargão

Carga cognitiva é o total de recursos mentais que uma tarefa consome. Eu trabalho com a imagem de uma bateria diária: análise crítica, raciocínio, autocontrole e flexibilidade de comportamento puxam energia dessa bateria o dia inteiro, e ela não se recarrega sob demanda.

Reunião puxa. Trânsito puxa. O colega difícil puxa. Decidir se aquele parágrafo que a IA gerou presta ou não presta também puxa, e essa é a parte nova da conta. A tecnologia tirou o esforço de produzir e acrescentou o esforço de validar, que é silencioso e ninguém mede.

A página 30, ou o freio que o cérebro nunca aprendeu

Se eu pudesse deixar uma única imagem, seria esta.

Você separa o sábado para ler aquele livro que chegou. Página um, que delícia. Página dois, interessante, mas você já esqueceu um pedaço da primeira. Página seis, começa a incomodar. Página trinta, você fecha o livro e vai fazer outra coisa, sem culpa nenhuma.

O corpo aprendeu a fazer isso ao longo de toda a nossa espécie. Cansou de ler, para. Aula de quatro horas, você levanta, toma um café, respira, volta. Ninguém precisou ensinar nada disso a ninguém.

O pulo do gato é que a gente nunca aprendeu a frear a inteligência artificial. O livro tem página 30. A janela do chat não tem. Num ambiente com pressão, e-mail chegando e cinco coisas acontecendo ao mesmo tempo, sem o freio que a leitura e a sala de aula já ensinaram ao corpo, o destino é a exaustão cognitiva. Nesse ponto eu nem preciso ser didático, porque boa parte de quem me ouve já está sentindo.

A gestão do dia que quase ninguém faz

Todo trabalho que a gente executa cabe em uma de três faixas: alta, média ou baixa carga cognitiva. O ideal seria alternar entre elas. Duas tarefas pesadas em sequência até dá, por um tempo, desde que venha uma leve depois.

O que eu vejo na prática é outra coisa. Três trabalhos de alta carga em modo multitarefa, mais dois de média, mais quinze pessoas esperando resposta sobre horário e procedimento. É como um computador com 48 abas abertas. Numa você monta um relatório complexo, noutra responde um colega, noutra está comprando um tênis. Eu chamo isso de pseudoprodutividade: fazer tudo ao mesmo tempo para parecer produtivo e arrebentar o cérebro no caminho.

O antídoto não é glamouroso. É planejar o dia antes que ele comece, mesmo sabendo que não vai sair igual ao planejado. Sem esse desenho prévio, a pessoa passa o expediente respondendo estímulo, e cada resposta parece produtiva isoladamente.

Eu aplico isso em mim de um jeito bem pouco sofisticado. Quando estou na janela de descanso, demoro trinta minutos para responder a mensagem, de propósito. Se eu respondo ali, acabei de transformar o descanso em tarefa de baixa intensidade, e a bateria que eu queria poupar já começou a ser gasta.

Como medir entrega quando a IA acelera tudo

Volto ao retrabalho das duas horas, porque ele desmonta um hábito de gestão que ficou obsoleto sem que ninguém percebesse.

Velocidade parou de ser um bom indicador sozinha. Se a entrega chega rápido, com baixa qualidade e alto retrabalho, não há motivo para comemorar o prazo. O balizador precisa ser o conjunto: tempo, qualidade e volume de correção depois. Entrega rápida com pouco retrabalho é excelente. Entrega rápida que consome duas horas de outra pessoa não é entrega, é transferência de trabalho.

O segundo balizador é mais desconfortável, porque exige que a liderança valorize quem demora um pouco mais e devolve algo melhor. Isso só existe se a pessoa puder sumir. O gestor que persegue no WhatsApp, manda no Teams, liga e ainda pede para alguém chamar o colaborador está inviabilizando exatamente a concentração que diz querer. Segurança psicológica, aqui, é bem concreta: é poder ficar quarenta minutos fora do radar sem que ninguém imagine o pior.

Seria desonesto defender isso sem reconhecer que eu também cedi. Fui eu quem aceitou entregar em três meses o que entregava em sete. Trocar velocidade por qualidade não se sustenta apenas no nível do gestor de time. Precisa chegar em quem promete prazo ao cliente, e essa conversa é consideravelmente mais cara.

Os dois medos que travam a conversa sobre IA

Tem gente usando IA escondido, com medo de parecer preguiçoso. E tem gente escondendo que ainda não sabe usar, com medo de parecer ultrapassado. Nos dois casos a energia vai embora administrando a própria imagem, não o trabalho.

Enquanto o assunto ficar no subsolo, a empresa não tem como calibrar nada. Cada pessoa opera com uma regra particular que ela mesma inventou, e o gestor descobre isso tarde, quando o material sem revisão já circulou.

Três movimentos para trazer a IA para a superfície

Depois de acompanhar essa implementação em consultorias, mentorias e treinamentos com diferentes níveis hierárquicos, eu diria que existem três passos, e eles só funcionam juntos.

1. Diálogo aberto

Colocar o tema na mesa e ouvir o que cada pessoa acha que pode e o que não pode. Numa sala de setenta pessoas existem setenta entendimentos diferentes sobre o uso de IA, e nenhum deles foi combinado com ninguém. O diálogo serve para reduzir esse ruído antes que ele vire regra informal e, pior, regra invisível.

2. Combinados

Sair do abstrato. Isso pode, isso não pode. Isso é ético, isso não é. Este é o agente oficial da empresa, este outro é secundário, aquele ali a gente não vai usar. Esse tipo de trabalho, sugiro delegar. Esse outro, não sugiro. Combinado que não vira frase escrita não sobrevive à primeira semana cheia.

3. Exemplo

O terceiro anula os dois anteriores quando falta. De nada adianta formalizar um combinado e não cumpri-lo, porque as ações falam mais alto do que as falas. Já vi liderança subir ao palco para defender adaptação à tecnologia pedindo que outra pessoa passasse os slides por ela. A plateia entende esse tipo de contradição em três segundos, e o combinado morre ali.

Duas perguntas antes de abrir o chat

Se desse para mudar uma única coisa já nesta semana, seria isto.

Primeiro, meça quanto tempo você passa por dia usando inteligência artificial. Só medir já muda alguma coisa.

Segundo, antes de cada uso, responda duas perguntas. Para que estou usando isso? E, mais importante: esse é o melhor caminho para o meu cérebro?

Um exemplo meu. Livro de finanças, área que eu não pretendo desenvolver, do qual preciso apenas de um panorama para conversar num evento: pode resumir, sem culpa nenhuma. Livro de neurociência ou de comportamento humano, que é o meu ofício: aí talvez valha a pena perder as horas. E-mail formal reclamando de um serviço que não me foi prestado: delego tranquilo. E-mail complicado para alguém do trabalho, daqueles em que cada palavra pesa: aí a pergunta é se vale abrir mão da chance de ficar melhor nisso.

O problema não é a IA resumir um livro. É ela resumir justamente o livro que ia me formar. Uma capacidade terceirizada funciona como musculatura: sem uso, ela vai embora, e some junto a chance de contar com ela no dia em que a ferramenta não estiver disponível.

Use, use sem dó, desde que essas perguntas sejam respondidas de forma condizente com os seus objetivos.

Quem paga a conta escolhe o caminho

Muitos gestores e CEOs voltaram para a operação para implantar IA e estão se desgastando nisso, o que gera atrito emocional em todos os lados. Minha resposta para esse cenário é menos uma solução e mais um espelho.

Quando entro numa consultoria, coloco os pilares na mesa e faço a empresa responder o que quer em curto, médio e longo prazo. Sustentabilidade das pessoas, retorno financeiro, estratégia, implementação de IA. As respostas quase sempre se contradizem, e é aí que a conversa fica útil. Resultado no trimestre pode custar saúde financeira no ano seguinte. Sustentar pessoas pode não entregar o número que o acionista espera agora.

Todo caminho tem um preço, e eu preciso entender qual preço aquela empresa quer pagar. Quem sou eu para responder isso no lugar dela. O que não existe é escolher os dois e fingir que não tem conta.

E tem uma coisa sobre liderança que eu não abro mão de repetir. Quando me perguntam como preparar líderes para distinguir alta performance real de produtividade insustentável, o primeiro requisito que eu aponto é gostar de gente, ou aprender a gostar. Quem enxerga a equipe apenas como instrumento de produtividade vai sugar o máximo daquela força de trabalho e garantir resultado no curto prazo, sem nenhuma sustentação depois. Cuidar não elimina cobrança. Quando uma liderança se importa genuinamente, ela cobra, às vezes cobra até mais, mas cobra melhor.

Isso significa reconhecer sazonalidade. Tem dia em que a capacidade de entrega está baixa, e o trabalho é extrair o melhor possível daquela faixa. Tem dia em que ela está no alto, e aí dá para ir longe. Insistir no máximo justamente no dia mínimo é o desperdício mais comum que eu vejo em gestão.

O que separa quem usa IA bem

Junte tudo e o retrato fica nítido. Quem sofre com a IA é quem a incorporou sem freio, sem combinado e sem critério de qualidade, apostando que o cérebro se adaptaria sozinho ao volume novo. Quem usa bem faz o caminho inverso: sabe quanto tempo passa na ferramenta, sabe o que delega e o que insiste em fazer com as próprias mãos, e trabalha numa empresa que decidiu, por escrito, para onde vai o tempo que a máquina devolveu.

A parte boa é que quase nada dessa lista depende da tecnologia. Depende de gestão, de combinado e de autoconhecimento, que são três coisas que a gente já sabia fazer antes de novembro de 2022.

Perguntas frequentes

A IA está deixando meu time mais cansado?

Provavelmente sim, e não por causa da ferramenta. O tempo economizado costuma ser reabsorvido por demanda nova no mesmo dia, e o uso de IA acrescenta uma camada de microdecisões: revisar, validar, corrigir e julgar se o material gerado resolve o problema. Mais entrega com mais desgaste é o resultado esperado quando ninguém combinou o destino da hora liberada.

O que é carga cognitiva?

É o total de recursos mentais que uma atividade consome. Funciona como uma bateria diária: análise crítica, raciocínio, autocontrole e flexibilidade de comportamento gastam essa energia ao longo do dia, e ela é limitada. Uma boa gestão de dia alterna tarefas de alta, média e baixa carga em vez de empilhar as pesadas.

Como usar IA sem perder capacidade cognitiva?

Medindo o tempo de uso e respondendo duas perguntas antes de cada uso: para que serve e se aquele é o melhor caminho. Delegue o que não faz parte do seu ofício e preserve as tarefas que desenvolvem você. Capacidade terceirizada por tempo demais fica indisponível quando a ferramenta falta.

Como a liderança mede entrega quando o time usa IA?

Pelo conjunto de tempo, qualidade e volume de retrabalho, nunca por velocidade isolada. Entrega rápida que consome horas de correção de outra pessoa apenas transferiu o trabalho de lugar. Vale ainda garantir que o time possa se concentrar sem interrupção, porque a qualidade que se pretende medir depende disso.

Sobre o autor

Daniel Hosken é neurocientista, escritor e palestrante. Doutor em neurociências pela UFMG, leciona para executivos na Fundação Dom Cabral, Fundação Getúlio Vargas e da Faculdade Israelita Albert Einstein. Autor de Por que é difícil mudar? Provocações sobre os desafios humanos na jornada da mudança, atua há mais de uma década no desenvolvimento de líderes e equipes e já viabilizou soluções para mais de 100 empresas. Unimed, Nubank e Vale estão entre as organizações atendidas por ele. 

Leve Daniel Hosken para o seu evento e mostre ao seu time a diferença entre usar IA e ser usado por ela.

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