As palestras que mais mexeram com o RH no maior evento de gestão de pessoas da América Latina, no relato de quem esteve nos três dias.
Por Flávio Stamm, DMT Palestras
Passei três dias no São Paulo Expo e volto com uma frase na cabeça, dita por uma palestrante que a DMT levou para lá: a empresa não vai te fazer feliz, mas ela não pode te fazer infeliz. Guardem essa frase. Ela resume o que a 52ª edição do CONARH colocou na mesa.
O evento é grande do jeito que dá para se perder. Mais de 120 palestrantes, mais de 300 expositores, mais de 30 mil pessoas circulando por uma feira com palco em quase todo estande, palestra acontecendo o tempo inteiro, da manhã ao fim da tarde. O tema desta edição, “Brasil Global: o futuro da gestão é humano”, podia ter virado só um slogan bonito na entrada. Não virou. Fui de palco em palco e a mesma pergunta reaparecia em cada um deles: o que a empresa faz de verdade pelas pessoas, além de um bom benefício e de um escritório com mesa de ping-pong?
Essa é a leitura que trago do CONARH 2026, com foco nas falas dos palestrantes que acompanhamos de perto.
Bem-estar no trabalho parou de ser enfeite e virou estratégia
Acompanhei a Renata Rivetti em dois momentos, e foi ela quem me deu a frase da abertura deste post.
Renata Rivetti: NR-1 e segurança psicológica
No palco do FESTRA, o Festival do Trabalho, Renata participou de um painel mediado por uma headhunter, sobre competências e sobre o que o mercado espera de um profissional num mundo que não para de se redesenhar. A conversa passou por turnover, por quanto tempo as pessoas ficam nas empresas hoje e por que tantas estão indo embora. No meio disso, ela cravou o ponto que ficou comigo:
“Se a gente vai passar cem mil horas da nossa vida trabalhando, não pode ser só um fardo, não pode ser só sofrimento.”
O recorte dela sobre inteligência artificial foi dos mais honestos que ouvi no evento. Para Renata, a tecnologia assume o operacional e o repetitivo, e o profissional que se sustenta é o que sabe usar a ferramenta com humanidade por trás, um perfil mais generalista que especialista. Ela não vendeu fórmula mágica. Disse, com todas as letras, que ninguém tem a fórmula e que boa parte das pessoas está ansiosa e sobrecarregada tentando dar conta de tudo isso ao mesmo tempo.
Em outro momento do CONARH, ela foi mais técnica e foi ao osso da saúde mental no trabalho:
“A empresa não pode te fazer feliz. A gente precisa assumir isso. (…) Mas ela não pode ser mais um ofensor na nossa saúde mental.”
É aqui que a fala dela encosta numa mudança concreta que o RH brasileiro tem na mesa agora: a nova NR-1, que trouxe a gestão de riscos psicossociais para dentro da obrigação legal das empresas. Renata separa as duas rotas com clareza. Dá para tratar a norma como um checklist a cumprir por medo de multa, ou dá para assumir o bem-estar como decisão estratégica, aquela que mexe em produtividade, retenção e resultado. Segurança psicológica, no jeito dela de explicar, é o suporte que a empresa oferece depois de garantir o básico. O benefício cobre a necessidade material. O resto se constrói na cultura.
Renata Rivetti é autora de O Poder do Bem-Estar, TEDx Speaker, LinkedIn Top Voice e fundadora da Reconnect Happiness at Work. Antes de se dedicar por inteiro ao desenvolvimento humano, atuou como executiva de marketing em multinacionais e se formou pela FGV-EAESP, com estudos em psicologia positiva em Harvard, Penn e Berkeley. Quando ela fala em felicidade corporativa, há currículo e método por trás.
Renata RivettiVer perfil completoVer perfil Afeto é decisão de gestão, não frase na parede
No palco principal do CONARH, num painel que carregava o próprio tema do evento, “Brasil Global”, Estevan Sartoreli dividiu a mesa com Leyla Nascimento, presidente da diretoria executiva da ABRH Brasil. Um dos fundadores da Dengo Chocolates ao lado da liderança máxima do congresso, tratando de humanização da gestão como diferencial competitivo. Foi das conversas mais cheias do evento.
Estevan Sartoreli: o que a Dengo ensina sobre vínculo
O argumento do Estevan tem uma vantagem rara: ele o prova com uma empresa de verdade. A Dengo ajudou mais de 200 famílias de produtores de cacau a prosperar, tem mais de 50 lojas no Brasil e duas em Paris, e se internacionalizou sem abrir mão do acolhimento e do calor humano que a definem. A tese dele é que a gestão humana se decide no vínculo, no que acontece entre as pessoas quando o discurso institucional acaba.
Duas falas dele resumem bem o tom:
“A gente tem que reclamar menos e cuidar mais de nós e do nosso país como brasileiros, valorizando o que temos e o que somos.”
“Espero que o afeto nos afete, que a gente consiga se gostar, cuidar e ser cuidado, trabalhar em um ambiente onde temos liberdade.”
Para o Estevan, afeto no trabalho é ferramenta de gestão, a escolha consciente de que as pessoas ao redor importam. E essa escolha aparece onde interessa à empresa: no vínculo, na retenção, no jeito de manter gente boa por perto. Ele também colocou o custo do adoecimento mental como argumento de negócio, o tipo de despesa que o RH já não consegue empurrar para debaixo do tapete. Falou ainda do papel do líder em cuidar da própria energia para conseguir, no dia a dia, ouvir e dar exemplo.
A trajetória sustenta a prática: passagem por Natura e Faber-Castell antes da Dengo, além da atuação como mentor da Endeavor. Estevan é um dos nomes que melhor traduzem, no Brasil, a ideia de que dá para lucrar e cuidar ao mesmo tempo.
O corpo cobra a conta
Se há um número que explica por que o CONARH inteiro girou em torno de gente, é este: estimativas da Lancet Commission apontam que os transtornos mentais podem custar à economia global cerca de US$ 16 trilhões acumulados até 2030. Saúde mental deixou de ser pauta do bem-estar e virou pauta de resultado.
Drauzio Varella: a biologia do esgotamento
Drauzio Varella subiu a uma das palestras magnas do CONARH para falar exatamente disso, a biologia do esgotamento. A DMT viabilizou a presença de um dos nomes mais respeitados do país quando o assunto é saúde, e ele deu um chacoalhão na plateia. Em 2025, aos 82 anos, Drauzio completou a Maratona de Berlim. Um ano depois, subiu ao palco para lembrar o óbvio que a gente esquece:
“Sem corpo, não tem filhos, pais, trabalho, nada. Você morre. Você tem que encontrar um caminho.”
Ele repercutiu uma pesquisa recente com mais de mil profissionais de RH: 61% relataram alguma questão de saúde mental no último ano e 40% dizem conviver com transtorno de ansiedade. “Os números dessa pesquisa são muito assustadores”, disse. Para Drauzio, cada um precisa encontrar a própria válvula de escape, e ele foi sincero sobre a dele, a corrida. “Eu gosto? Odeio”, disse. Corre assim mesmo, porque é dessa forma que consegue lidar com a própria ansiedade.
A parte que mais interessa a quem trabalha com pessoas foi o recado sobre liderança. Nas empresas antigas, contou ele, quem começava a render menos por causa de um quadro emocional era demitido. As modernas entenderam que perder alguém que conhece a cultura e se relaciona bem com o time é o pior negócio. “A premissa é como vamos ajudá-la a sair desse quadro. (…) A gestão hoje implica diálogo.” E fechou com o alerta mais direto da manhã, com as próprias palavras: “Não é vergonha buscar ajuda. Procure ajuda logo, na fase inicial. É aí que você tem a possibilidade de resolver o problema de um jeito mais simples.”
Dr. Drauzio VarellaVer perfil completoVer perfil
Na corrida pela IA, ganha quem é mais humano
Se teve um fio que atravessou o evento além do bem-estar, foi a inteligência artificial. E os palestrantes que a DMT levou trataram do assunto pelo ângulo que interessa ao RH: o que continua sendo só nosso quando a máquina faz o resto.
Danni Suzuki, professora da PUCRS, especialista em neurociência e comportamento e autora de Humanos do Futuro, levou ao CONARH a tese que dá título ao livro: quanto mais a tecnologia avança, mais o resultado de um negócio depende daquilo que ferramenta nenhuma entrega, a forma como as pessoas se entendem. Para ela, a máquina repete o que foi programada para repetir, e a inovação segue como território humano.
Ao resumir depois a própria mensagem, Danni deixou duas frases que valem para qualquer líder: a de que as pessoas “vão esquecer o que você disse, vão esquecer o que você fez, mas nunca vão esquecer a forma como você as fez se sentir”, e a de que “o futuro é a frequência que a gente escolhe agora”.
Danni SuzukiVer perfil completoVer perfil
Amanda Graciano, economista, professora da Fundação Dom Cabral e da Singularity University e fundadora da Trama, foi ao painel “A terceirização do pensamento na era da IA”, na arena dedicada ao futuro do trabalho. O recorte dela é preciso: adotar IA sem terceirizar o próprio critério. Amanda mostra como líderes e times podem usar a tecnologia para liberar tempo e devolvê-lo justamente àquilo que só o humano entrega, sem perder contexto nem capacidade de fazer boas perguntas. É a diferença entre a empresa que usa IA e a que apenas a instala.
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Cultura, conversa e repertório: o profissional que o futuro pede
A última camada do evento foi sobre o que sustenta uma cultura de dentro, e aqui a DMT levou dois nomes que atacam a questão por lugares diferentes.
Maytê Carvalho, especialista em comunicação, autora dos best-sellers Persuasão e Ouse Argumentar, abriu a própria palestra com uma provocação:
“Sua empresa não tem um problema de cultura. Sua empresa tem um problema de comunicação.”
O argumento dela é que valor no papel não vira comportamento sozinho. É a comunicação que traduz o que a empresa diz acreditar em decisões, em liderança e em rotina. Quando discurso e prática andam juntos, a comunicação gera clareza e pertencimento. Quando se descolam, gera ruído. Para Maytê, cultura é aquilo que as pessoas fazem quando ninguém está olhando. Ela é mestre em comunicação pela PUC-SP, professora na ESPM e na PUC, teve passagem por uma das maiores agências de publicidade do mundo em Los Angeles e por uma consultoria em Nova York, e hoje toca a própria empresa.
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Henri Karam, head de relações públicas da BYD Brasil e correspondente internacional com passagem por CNN Brasil, Globo e Record, participou do painel “Carreiras sem fronteira”, sobre pluralidade e adaptabilidade como vantagem competitiva, da China ao Brasil. A leitura dele conecta bem com todo o resto: num mercado que muda de rota o tempo inteiro, a capacidade de transitar entre contextos, culturas e públicos deixou de ser um extra no currículo e passou a ser o próprio trunfo.
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A leitura da DMT
Saio do CONARH 2026 com a impressão de que a gestão humana virou a linguagem oficial do RH brasileiro. O que ainda era discurso em anos anteriores apareceu aqui como agenda prática, com norma, com dado de custo e com casos de empresas que provam a conta. A pergunta que sobrou é outra: como cuidar das pessoas de verdade, e com quem fazer isso.
Essa segunda parte é o nosso trabalho. Os palestrantes que a DMT colocou nos palcos do CONARH cobriram o tema por ângulos que se completam: bem-estar como estratégia com Renata Rivetti, afeto como decisão de gestão com Estevan Sartoreli, saúde do corpo e da mente com Drauzio Varella, o humano diante da IA com Danni Suzuki e Amanda Graciano, e a cultura que se constrói na conversa e no repertório com Maytê Carvalho, Marcelo Cosme e Henri Karam. Ver todos eles no maior palco de RH da América Latina, no mesmo evento, diz bastante sobre o time que a gente representa.
Quer levar um desses nomes para o seu evento ou para dentro da sua empresa? A gente ajuda você a escolher o palestrante certo para o momento da sua equipe.





