Entre os dias 26 e 28 de agosto, Goiânia recebeu o 16º Concred, Congresso Brasileiro do Cooperativismo de Crédito. Considerado o maior evento do cooperativismo financeiro do mundo, o encontro reuniu cerca de 7 mil participantes para discutir os movimentos que já influenciam o setor e as escolhas que ajudarão a definir seus próximos caminhos.
Consumo, geopolítica, inteligência artificial, liderança e relações de trabalho estiveram entre os assuntos que passaram pelo palco. A DMT esteve presente nessa conversa com especialistas de diferentes áreas, ampliando o olhar sobre os desafios atuais e os próximos caminhos do cooperativismo financeiro.
Reunimos alguns dos principais insights compartilhados durante o evento.
Comportamento e proximidade com o cooperado
Conhecer bem o cooperado sempre fez parte da essência do cooperativismo financeiro. Na palestra “Tendências de consumo: impactos nas cooperativas de crédito”, Michel Alcoforado mostrou como essa proximidade pode orientar decisões mais alinhadas às transformações no comportamento das pessoas.
Para o antropólogo do consumo, as cooperativas possuem algo que outros agentes do mercado financeiro dificilmente conseguem reproduzir: contato, convivência e conhecimento aprofundado sobre quem está do outro lado da relação.
“As cooperativas de crédito têm contato e convivência com o cooperado, que é o próprio dono, que o banco não tem. Elas conhecem os seus cooperados melhor do que qualquer outro player do mercado financeiro. Isso é um ativo que, se você não usar, é capaz de ser a maior desvantagem.”
A provocação chama a atenção para uma vantagem que não se sustenta apenas pela proximidade. Para gerar valor, o conhecimento sobre os cooperados precisa orientar produtos, experiências, formas de relacionamento e escolhas estratégicas. Em um mercado cada vez mais disputado, compreender o comportamento de quem já está perto pode ser tão importante quanto acompanhar as grandes tendências de consumo.
Michel AlcoforadoVer perfil completoVer perfil
Geopolítica também entrou na conta dos negócios
Conflitos internacionais, disputas comerciais e decisões tomadas por grandes potências deixaram de ser assuntos distantes da rotina das organizações. Na palestra “Cenários Globais e os Impactos da Geopolítica no Mundo dos Negócios”, o professor HOC mostrou por que acompanhar esses movimentos se tornou parte da estratégia.
Se antes uma decisão de compra poderia se concentrar em preço, qualidade e disponibilidade, hoje a análise precisa considerar riscos políticos, interesses internacionais e possíveis impactos sobre cadeias produtivas e mercados.
“O mundo não funciona mais apenas na lógica econômica. Para tomar uma decisão, é preciso colocar na balança o custo geopolítico de cada escolha. Antes, na hora de adquirir um produto, bastava ver quem tinha para oferecer, com a qualidade desejada, pelo menor preço. Hoje, pesa muito mais o impacto geopolítico dessas decisões.”
Para as cooperativas de crédito, essa leitura amplia a compreensão sobre fatores que podem afetar seus cooperados, os setores financiados e as economias locais. A geopolítica deixa de ser apenas uma análise do cenário internacional e passa a compor a avaliação de riscos e oportunidades dentro do próprio negócio.
Professor HOC | Heni Ozi CukierVer perfil completoVer perfil
Inteligência artificial com protagonismo humano
Em “Cooperativismo na Era da Inteligência Artificial: como liderar a transformação sem perder a essência”, Silvio Meira discutiu como o avanço da tecnologia também redefine o papel das pessoas.
“Com o advento da inteligência artificial, passamos a automatizar os processos de classificar, resumir, prever e criar. Nosso trabalho como seres humanos passa a ser o de projetar, testar, integrar, auditar e questionar. Uma nova gramática do trabalho precisa ser construída, priorizando humanos.”
A reflexão mostra que adotar inteligência artificial vai além de incorporar novas ferramentas. Também exige rever processos e responsabilidades, preservando a proximidade e a confiança que fazem parte da essência do cooperativismo.
Silvio MeiraVer perfil completoVer perfil
O agro brasileiro e as oportunidades até 2035
Em “Brasil 2035: o agro, a economia e as oportunidades para o cooperativismo financeiro”, Marcos Fava Neves, o Doutor Agro, apresentou uma análise sobre as perspectivas para um dos setores mais importantes da economia brasileira.
Professor da USP e especialista em planejamento estratégico para o agronegócio, ele reuniu tendências e oportunidades para discutir o papel do agro no desenvolvimento econômico e seus reflexos para as cooperativas de crédito, especialmente aquelas que mantêm uma relação próxima com produtores e negócios ligados ao campo.
Marcos Fava Neves (Doutor Agro)Ver perfil completoVer perfil
O que permanece quando tudo ao redor muda?
Depois de uma programação atravessada por transformações tecnológicas, econômicas e sociais, Marcos Veras conduziu a conversa “O que não muda quando tudo muda?”.
Com uma abordagem leve e bem-humorada, o ator, diretor, escritor e palestrante partiu da observação do comportamento humano para discutir relações de trabalho, liderança, hierarquia e cooperação dentro das organizações.
A palestra trouxe para o centro do debate os valores que continuam necessários mesmo quando processos, ferramentas e estruturas se transformam. Colaboração, confiança e qualidade das relações seguem influenciando a maneira como as equipes atravessam mudanças e constroem uma cultura capaz de sustentar os próximos passos da organização.
Pessoas, liderança e novas formas de decidir
No dia 28, as discussões avançaram sobre desafios que atravessam diretamente a gestão das organizações. Liderança, saúde mental, diversidade, pensamento sistêmico e conexões humanas conduziram uma programação voltada às relações que sustentam o trabalho e à forma como pessoas e organizações respondem a cenários cada vez mais complexos.
Liderança para relações de trabalho em transformação
Em “Uma nova liderança para um novo tempo”, Maria Homem trouxe uma reflexão sobre o papel de quem conduz pessoas em um cenário marcado por novas tecnologias, mudanças nas relações de trabalho e diferentes formas de convivência.
Psicanalista, escritora e pesquisadora das relações humanas, ela colocou em pauta a necessidade de lideranças capazes de conciliar resultados, escuta e relações mais saudáveis. Um olhar que amplia a gestão para além dos processos e considera como a qualidade dos vínculos influencia a confiança e o envolvimento das equipes.
Maria HomemVer perfil completoVer perfil
Saúde mental como parte da estratégia
Renata Rivetti levou ao Concred uma discussão que ganhou espaço definitivo na agenda das organizações: a integração da saúde mental à gestão de riscos, à performance e à sustentabilidade.
Na palestra “NR-1 e o Futuro do Trabalho: saúde mental como estratégia de performance e sustentabilidade”, a especialista em bem-estar corporativo mostrou como o tema se conecta às decisões da liderança e às condições em que o trabalho acontece. Para as cooperativas, esse olhar ajuda a construir ambientes mais saudáveis e preparados para sustentar resultados ao longo do tempo.
O impacto da diversidade nos negócios
Na palestra “Diversidade como estratégia de negócio: da intenção ao impacto”, Lisiane Lemos abordou a diversidade como uma escolha estratégica capaz de influenciar a inovação, a competitividade e a capacidade das organizações de compreender diferentes públicos.
Com experiência em empresas globais de tecnologia, ela mostrou como reunir perspectivas diversas pode ampliar a leitura dos desafios e qualificar decisões. No cooperativismo financeiro, essa discussão também se conecta à pluralidade de pessoas, territórios e realidades que fazem parte do setor.
Pensamento sistêmico para enxergar além do problema
Em “PensAR: Pensamento Sistêmico para decidir e agir em contextos complexos”, Maria Flávia Bastos mostrou como ampliar o olhar sobre desafios que não possuem uma causa isolada nem podem ser resolvidos por uma única área.
O pensamento sistêmico ajuda líderes a compreender interdependências, mapear relações de causa e efeito e identificar onde uma decisão pode gerar maior impacto. Uma competência especialmente relevante para cooperativas que precisam equilibrar resultados, pessoas, comunidades e sustentabilidade.
Quem está disputando a nossa atenção?
Em “A sua atenção foi hackeada!”, Genesson Honorato colocou em pauta um recurso cada vez mais escasso no cotidiano: a capacidade de manter o foco em meio ao excesso de informações, notificações e estímulos digitais.
Psicólogo e especialista em inovação e futuro do trabalho, ele relacionou comportamento digital, produtividade e gestão da atenção. Uma discussão importante para líderes e equipes que precisam tomar decisões, colaborar e preservar a qualidade do trabalho em uma rotina marcada pela hiperconectividade.
As relações humanas em um mundo cada vez mais digital
Denise Fraga encerrou a programação da plenária principal com a palestra “Conexões Humanas”, trazendo para o palco uma reflexão sobre algo presente no cotidiano de qualquer organização: a forma como as pessoas se relacionam.
Com a sensibilidade e o olhar atento ao cotidiano que marcam seu trabalho, a atriz e escritora falou sobre convivência, empatia e escuta em uma realidade cada vez mais mediada pela tecnologia. Um encerramento que lembrou ao público que, mesmo diante de tantas mudanças, são as relações que dão sentido à maneira como trabalhamos e construímos o futuro.
Ideias que continuam depois do evento
As conversas do 16º Concred mostraram como diferentes áreas do conhecimento podem ampliar o olhar sobre os desafios do cooperativismo financeiro. A DMT teve orgulho de levar ao evento vozes capazes de transformar temas atuais em reflexões relevantes para o setor.
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